21 de junho de 2012

O Fim (Temporário) da Utopia

As vezes parece que tudo está pequeno demais para mim. Tenho dessas coisas... Parece que a vida que eu realmente quero viver está tão distante que não a vejo nem no final do túnel, então continuo vivendo a que me deram para viver. Isso não me torna triste, apenas cansada. Essa eterna espera por algo que nunca vai chegar... a satisfação. Na minha vida perfeita tantas coisas seriam diferentes. Este não é o local e nem a hora de dizer que coisas seriam essas, mas adianto dizendo que minha vida perfeita não está na Prudente Morais com um Mini Cooper na garagem. Essa não seria minha vida perfeita. Posso, entretanto, dizer que minha vida perfeita começaria com um fusca.

Hoje foi dia de faxina. Joguei tantas coisas no lixo, coisas das quais tinha dificuldade de me desapegar. Vogues antigas, todo meu material da época que eu ainda fazia Relações Internacionais, roupas, dentre tantas outras coisas. Sacos e mais sacos indo para o lixo, ou simplesmente para longe da minha casa. Entretanto eu parei minha arrumação entre cartolinas, colas coloridas, penas e folhas coloridas quando encontrei um papel com uma daquelas brincadeiras que fazíamos quando éramos crianças. Lembro do dia e da circunstancia e quem fez aquela brincadeira comigo. Ela fazia para as meninas de nove anos e para ela mesma, quando eu achei divertido e pedi "faz pra mim também". E ela fez. Três garotos. Três carros, três lugares pra passar a lua de mel. Idade que você quer se casar. Que a sorte seja lançada. Parabéns, você vai se casar aos 27 anos, vai ser rica, vai ter três filhos, vai casar com o cara que você queria, passar a lua de mel no lugar que você queria e vai ter um Jeep. Um Jeep.

Vejam bem vocês, eu sou uma garota Fusca, não uma garota Jeep. Ousei questionar as opções como se o futuro pertencesse a mim. Eu deixaria de ser uma garota Fusca para ser a garota Jeep apenas para me encaixar naquela vida que me pareceu tão perfeita... que eu guardei o papel da brincadeira boba que se faz com meninas de nove anos.

Eu sempre pegava aquele caminho e olhava atentamente para os rostos na rua e para a esquina que me fazia sorrir. Até que parei de fazer isso. Percebi que as chances daquilo acontecer, o encontro de olhares que eu esperava, era mínima. Mas, logo depois disso, eu parecia atraída por aquela rua e por aquela esquina, de maneira que eu poderia ter vindo a viagem inteira lendo um livro e eu levantaria a cabeça, finalmente, quando passasse por ali. Era como meu coração chamasse por aquilo. Então hoje, no dia em que eu tinha me questionado sobre ser uma menina Jeep ou uma menina Fusca - como se fosse escolha minha - eu me peguei distraída olhando para a janela do ônibus, sem prestar atenção verdadeira a nenhum rosto que passava pela rua ou para a pessoa que conversava comigo. Apenas divagava divagando quando, de repente, eu o vi. Finalmente, sem procurá-lo, sem caçá-lo. Lá estava ele e eu o encontrei. Wally no meio da multidão. Meu olhar o seguiu, mas, principalmente, meu coração continuou ali, mesmo quando desci do ônibus, muitos pontos depois.

Sinais e existência perfeita, as grandes utopias da minha vida. Sapos não caem do céu, não existe o inevitável. Não consigo pensar na minha vida como se ela fosse controlada por algo maior do que eu. Acredito em pagar o preço, mas acredito que os lugares onde chegamos é onde nossos pés nos levaram, através de nossas escolhas.

Hoje eu me desapeguei do passado, dando espaço para coisas novas, um presente e, eventualmente, um futuro. Não digam "finalmente", não digam "até que enfim". Não digam porque dói, como já dizia Gwen Stefani. A mesma pergunta pode ter várias respostas diferentes, então nunca lhes darei uma resposta a uma pergunta tão importante do tipo "o que você quer agora?" ou "como é a vida perfeita pra você?" como sendo a única e definitiva. Hoje eu quero ser uma garota Fusca, a garota do Loft, das pontas dos cabelos coloridos, das tatuagens, dos quadros de Roy Lichtenstein, das Ball Chairs, do intercambio, do Canadá, de Nova York, da estrada, do mundo, de mim mesma, sozinha. E nesse exato momento eu só quero duas coisas: um show do Leonard Cohen e ser ninada pela voz de Tom Waits. 

Um comentário:

  1. Um texto de transição. Bem no meio, entre o passado e o futuro, está você aí, se A-presentando. Fusque-se, não ofusque-se.

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